Um Engov antes, um Engov depois – mitos e verdades sobre as estratégias “anti-ressaca”

Um Engov antes e um depois

Existem inúmeras “estratégias” sugeridas para evitar os fiascos advindos de excessos alcoólicos, assim como para curar um amigo bêbado. Acontece que nem todas essas estratégias têm fundamento. Algumas são apenas histórias da carochinha, tal qual aquela de que comer manga com leite pode matar.

Visto isso, vamos analisar os sábios conselhos dados aos “bebuns”:

1) TOMAR UM ENGOV ANTES E UM DEPOIS DE BEBER.

Engov é um remédio composto por antiácido (contra azia), analgésico (para dor), anti-histamínico (contra reações alérgicas), antiemético (contra enjoo e vômito) e cafeína. Ele, oficialmente, é indicado para atenuar os sintomas da ressaca no dia seguinte, pois atua sobre a irritação que o álcool causa no estômago, assim como sobre a dor de cabeça, enjoos e “corpo mole”. E, no dia seguinte, ele realmente é bastante eficaz.

Curiosamente, na bula do Engov está escrito: “É contraindicado o uso com outras drogas que deprimem o sistema nervoso central (SNC) e com bebidas alcoólicas”. Por quê?

O corpo possui suas formas naturais de se defender quando exageramos no álcool. Normalmente, elas correspondem a vomitar ou dormir. Isso é o corpo dizendo “chega, você já passou da conta”. Quando tomamos algo que evita que a gente vomite, durma ou se sinta mal, estamos simplesmente inibindo as defesas do corpo, que não poderá mais nos impedir de continuar bebendo. Dessa forma, aumentamos o risco de elevar a concentração de álcool no sangue a níveis perigosos.

Ou seja, o Engov é útil no dia seguinte para melhorar os sintomas da ressaca. Até para depois que a pessoa já parou de beber e quer minimizar as sensações desagradáveis da futura ressaca. Mas antes e/ou durante a bebedeira ele pode ser ardiloso.

Essa explicação também é válida para as outras medidas tomadas na tentativa de curar bebedeira que simplesmente inibem as defesas naturais do corpo, aumentando o risco da intoxicação alcoólica chegar a níveis perigosos, como DAR CAFÉ PARA O AMIGO BÊBADO, DAR ENERGÉTICO A ELE OU MISTURAR ENERGÉTICO NA BEBIDA. Nesta classe de conselhos também entraria a ideia de DAR BANHO FRIO NO BÊBADO que, além de mantê-lo acordado, inibindo a defesa do corpo de dormir, ainda aumenta o risco de hipotermia, dado o efeito vasodilatador e anestésico do álcool.

Enfim, todos esses conselhos citado são furados, são MITOS, e ainda podem ser perigosos, afinal, o único remédio para embriaguez é dar tempo para que o fígado metabolize o álcool ingerido, o que corresponde a aproximadamente 1 hora para cada dose-padrão de álcool ingerida.

 

Fig. 1 - Uma dose-padrão

Fig. 1 – Uma dose-padrão corresponde aproximadamente à uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de destilado.

2) TOMAR ÁGUA ENTRE OS DRINQUES

Este é um dos melhores conselhos na área, pois a água entre os drinques cumpre algumas funções importantes.

Primeiro, ela diminui a velocidade de ingestão de álcool, uma vez que o tempo gasto para tomar água é um tempo em que não se ingere álcool, dando um prazo maior para o fígado.

Segundo, o álcool inibe o hormônio ADH, responsável pela reabsorção de água nos rins. É por isso que a bebida faz dar mais vontade de ir ao banheiro e deixa a urina clarinha, pois, como não há reabsorção da água, toda ela é eliminada, o que causa desidratação, uma das grandes responsáveis pela ressaca. A água também ajuda a eliminar mais rápido as toxinas presentes na bebida alcoólica, que são outras importantes contribuintes para os efeitos desagradáveis do dia seguinte.

Tomar água entre os drinques, portanto, compensa a desidratação causada pelo álcool e previne a ressaca. Um ótimo conselho!

Fig. 2 - Beber água, um ótimo conselho

Fig. 2 – Beber água, um ótimo conselho

Usando a mesma lógica, vale à pena dar ouvidos a outros conselhos como TOMAR REFRIGERANTE ENTRE OS DRINQUES, BEBER MAIS ESPAÇADAMENTE, ou qualquer ação que contribua para diminuir o consumo de álcool por hora ou hidratar o corpo.

3) TOMAR UMA COLHER DE AZEITE ANTES DE BEBER

Sempre achei esse conselho meio esquisito, mas ele tem a sua lógica. Vejamos:

A absorção do álcool ingerido acontece principalmente no estômago e no intestino, ou seja, são esses órgãos que mandam o álcool direto para o sangue. O estômago faz aproximadamente 25% do trabalho e o intestino faz os outros 75%.

Quando o estômago está vazio, toda a superfície dele se dedicará a absorver o álcool ingerido. Isso faz com que o álcool vá mais rápido para o sangue, chegando de uma vez só no fígado, que tem uma capacidade limitada de metabolizá-lo.

Todos já ouviram o velho conselho “NÃO BEBA DE ESTÔMAGO VAZIO!”. É por isso. Quando temos comida no estômago, a absorção do álcool é mais lenta, o que faz com que ele chegue aos poucos no sangue, dando mais tempo para o fígado fazer seu trabalho antes que a concentração alcoólica no sangue se eleve muito.

Uma variável desse conselho é COMER COMIDAS GORDUROSAS ANTES DE BEBER. Parece que as comidas gordurosas demoram mais para serem digeridas e criam uma espécie de camada no estômago que torna a absorção do álcool ainda mais lenta. O conselho da colher de azeite parte desse princípio.

Eu, particularmente, acho mais interessante comer uma coxinha, um hambúrguer, batatinha frita ou algo assim do que tomar uma colher de azeite. Mas cada um com suas preferências.

Fig. 3 - Comidas gordurosas ajudam a diminuir a velocidade de absorção do álcool

Fig. 3 – Comidas gordurosas ajudam a diminuir a velocidade de absorção do álcool

Também há os que contraindicam as comidas gordurosas, pois elas sobrecarregariam o fígado que teria que dar conta tanto do álcool quanto da gordura ingerida. Aí é uma questão de escolha: atrasar a absorção do álcool ou preservar o fígado.

Resumindo, qualquer ação depois que o sujeito já “entortou o caneco” deve ser no sentido de evitar danos maiores, como impedir que beba mais, não deixá-lo dormir de barriga para cima, evitar acidentes ou brigas, entre outros. Tentar acordá-lo ou fazer com que se sinta melhor na hora é ir contra a defesa natural do corpo, aumentando o risco de uma intoxicação mais grave, pois ele poderá continuar bebendo.

Para evitar as consequências indesejáveis da bebida, o segredo é controlar a concentração de álcool no sangue, seja mantendo uma média de duas doses-padrão por hora, seja diminuindo a velocidade de absorção do álcool ao forrar o estômago, ou tomando bastante água, o que mata dois ou três coelhos com uma “caixa d’água” só!​

 

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