Por que os programas de prevenção não previnem?

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“A prevenção é o melhor remédio”, “é melhor prevenir do que remediar”, “prevenção é a solução”.

Máximas como essas demonstram que a importância de trabalhar com prevenção ao uso de drogas é indiscutível. No entanto, se pararmos para olhar só um pouquinho a realidade, vamos observar que prevenção é o que menos se faz e, pior, o pouco que se faz parece não funcionar.

Quando uma escola ou instituição quer trabalhar com prevenção normalmente vai planejar alguma palestra sobre drogas. O conteúdo da palestra, normalmente, varia entre imagens chocantes e consequências extremas da dependência, informações científicas sobre as drogas, seus efeitos e prejuízos, depoimentos de ex-usuários ou palestras moralistas sobre decisões “do bem”. Alguns mais ousados resolvem fazer bate-papos informais com os alunos sobre o tema.

Existe, há algum tempo, uma Ciência da Prevenção ao Uso de Drogas, composta por inúmeros estudos e pesquisas sobre o que funciona e o que não funciona na tarefa de prevenir o uso de drogas. O conhecimento científico mundial sobre o tema encontra-se sintetizado nas Diretrizes Internacionais de Prevenção ao Uso de Drogas, documento público da UNODC.

Trago aqui exemplos de itens que este documento demonstra estarem associados a ações INEFICAZES de prevenção ao uso de drogas entre adolescentes:

– Métodos não-interativos;

– Informações científicas, despertando medo;

– Depoimentos de ‘ex-dependentes’;

– Foco em tomada de decisões com base em ética/moral;

– Conversas desestruturadas;

– Programas aplicados por policiais.

Coincidentemente, quase todos os itens associados à ineficácia na prevenção, segundo as pesquisas mundiais, são o que basicamente vemos sendo feito nas escolas atualmente. Acho que de saída, isso já explica, superficialmente ao menos, por que os esforços de prevenção não têm alterado a realidade dos lugares em que são aplicados.

Mas por que insistimos em ações que são comprovadamente ineficazes?

Tenho duas hipóteses. Primeiro porque essas estratégias foram as primeiras estratégias adotadas nos Estados Unidos, e foram mundialmente divulgadas. As pesquisas americanas que verificaram que essas ações não traziam os resultados esperados não foram divulgadas da mesma forma. Assim, o imaginário coletivo da prevenção ao uso de drogas ficou impregnado pelas primeiras imagens, que predominam até hoje. Detalhe que boa parte dessas pesquisas foram realizadas na década de 1970, ou seja, faz tempo que se sabe que essas ações não funcionam.

Segundo, não deixo de pensar nos reais interesses por trás do bilionário comércio de drogas. Ações eficazes de prevenção atenderiam os interesses de quem?

Se não vai atender o interesse de ninguém, é melhor ficar no blá-blá-blá sobre prevenção e fingir que estamos fazendo nossa parte, certo? É melhor priorizarmos debates “realmente importantes” como legalização ou efeitos medicinais da maconha, não é assim?

Mas para não ficar apontando apenas o que há de errado, apresento também alguns exemplos de itens associados a ações EFICAZES na Prevenção ao Uso de Drogas, trazidos pelo mesmo documento:

– Uso de métodos interativos;

– Desenvolvimento de habilidades sociais e pessoais;

– Corrige crenças e percepções equivocadas sobre as drogas e quantidade de pessoas que consomem;

– Sessões estruturadas (de 10 a 15) uma vez por semana;

– Quando fala de consequências, apresenta consequências imediatas;

– Aplicado por facilitadores treinados.

E percebo que o último item é pré-condição para que os outros existam, pois para trabalhar com métodos interativos, desenvolvendo habilidades e corrigindo crenças não basta boa vontade de quem aplica o programa. É preciso capacitação específica para isso.

Um exemplo que ouvi esses dias foi de um professor que aplicava o Programa #TamoJunto (versão brasileira de um programa europeu que segue as Diretrizes Internacionais), que simplesmente lia a apostila para os alunos, sem interação nenhuma, cobrando disciplina, enquanto os alunos o escutavam entediados. Claro que não terá o efeito esperado. Um bom programa sem um bom facilitador não tem como funcionar.

Acho que com isso (e isso é apenas um pequeno recorte de tudo o que poderia ser dito sobre o tema) a pergunta “Por que os programas de prevenção não previnem?” deixa de ter um ar de complexidade e admite uma resposta até bem simples: não funcionam porque ignoram os avanços da ciência da prevenção ao uso de drogas.

Agora, a próxima pergunta lógica: “por que os avanços da ciência da prevenção são ignorados?” talvez não admita uma resposta tão simples assim.

 

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