Os superpoderes das drogas

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Esses dias ouvi uma longa argumentação sobre a quantidade de pessoas na cadeia que não estariam nessa condição se as drogas (ou a maconha no caso) fossem descriminalizadas.

Em paralelo a esse discurso, outro comentava sobre o preconceito existente no julgamento dos policiais quando têm que dizer se a maconha que estava com o jovem era porte ou tráfico (hoje a responsabilidade de definir isso é do policial e a sanção para cada enquadramento é distinta). Dizia que se fosse um loirinho no Batel provavelmente seria considerado porte e se fosse um pretinho na periferia seria tráfico, criticando a desigualdade e discriminação na nossa sociedade.

Conclusão da argumentação: Se decriminalizasse a maconha não existiria esse problema.

Solução muito simples para um problema complexo, não? Vamos analisar de outra perspectiva.

Em diversos momentos tenho comentado sobre a existência de ações de marketing das drogas. Ações que geram curiosidade sobre elas, que despertam o desejo de experimentação e que fomentam discussões apaixonadas em diversas áreas, desde o direito até a medicina.

Esse movimento de marketing tem um pilar principal: a supervalorização das drogas, através dos superpoderes a elas atribuídos.

Cena do filme "Lucy"

Cena do filme “Lucy”

Essa ideia não vem do nada. Em um texto sobre as teorias e estratégias da publicidade e propaganda (Galindo, 2008), encontramos que “a chave [da propaganda] está em valorizar um bem frente aos demais” e que “a razão de ser da atividade publicitária é transformar objetos em cargas simbólicas que transmitam mensagens que excedam seus atributos e benefícios“. Em outras palavras, o objeto em si não significa nada demais até que a publicidade carregue-o com um halo de significados que o tornem mais do que realmente é.

A criação dessa “aura eminentemente simbólica” é o que faz cumprir o objetivo da publicidade de “modificar a relação que estabelecemos com um objeto qualquer”.

Um estudo americano sobre o que motiva um jovem a experimentar maconha apontou que a curiosidade estava entre as principais motivações para a experimentação. Mas por que curiosidade para fumar maconha e não para experimentar uma fruta exótica ou qualquer outra coisa?

Ninguém sente curiosidade por algo insignificante. Então, supervalorizar a droga está entre as ações que fomentam essa motivação inicial para a experimentação. Cria-se a expectativa de uma experiência surreal que, de acordo com pesquisa conduzida pelo sociólogo Howard Becker, se mostra decepcionante para a maioria dos experimentadores que, ou não sentem nada ou se sentem mal quando fumam maconha pela primeira vez.

Esses superpoderes, que representam a alma da promoção das drogas, são reforçados por todos que atribuem à ela mais valor do que realmente tem. Superpoderes pro mal ou pro bem, não importa, todos alimentam a premissa do marketing das drogas – a supervalorização.

Talvez essa seja uma das razões para o fato de que não funciona amedrontar os jovens com relação às drogas para prevenir o consumo. Dizer que são substâncias capazes de destruir vidas, capazes de destruir famílias, capazes até de corromper uma sociedade inteira faz parte do movimento de criar uma aura de fascínio em torno da substância.

Assim como o discurso dos que defendem a descriminalização e afins, defendendo que o simples status legal da substância seria capaz de resolver problemas complexos como violência, prisões desnecessárias, liberdade do indivíduo, índice de desemprego, narcotráfico e até questões importantes de saúde da população.

Essa aura de superpoderes, bons ou maus, dá razão de ser à curiosidade e ao fascínio existentes sobre as drogas.

Mas como fugir disso quando se fala no tema, para não alimentar a perversidade existente nas argumentações sobre ele?

Aquele policial preconceituoso, ao se deparar com o “pretinho da periferia” com um baseado na mão, iria deixá- lo em paz e respeitá-lo porque agora a maconha que está com ele não representa mais um crime?

Não teria esse problema sua origem mais relacionada ao preconceito e à desigualdade do que ao status legal da erva? Não se está superestimando a maconha nessa discussão?

Por outro lado, é culpa da maconha o sujeito que se afundou nas drogas? Afinal, foi a primeira droga ilícita que ele experimentou, não é assim? Ou será que o caminho dele tem mais a ver com insatisfações familiares, falta de vínculos sociais, incentivo de colegas à continuidade do uso, pré- disposição biológica, entre outros fatores? Não quero desapontar ninguém, mas a erva em si não tem todo esse poder, nem para o bem e nem para o mal.

Ao buscar as reais razões das questões envolvidas nas polêmicas sobre as drogas, talvez víssemos que o problema não é e nunca foi qualquer droga. Mesmo a atual demonização do crack (também superpoderoso, destruidor da organização social, não?) é uma forma de valorizar demais a substância em si em detrimento da atenção para problemas mais complexos.

Quem quer contribuir com a prevenção do uso de drogas precisa primeiro parar de dar tanta moral para as drogas. Deve considerar que a publicidade delas só funciona devido a essa “aura simbólica” que construímos ao seu redor. Elas não são tão poderosas assim. E não merecem esse posto em que foram colocadas. Tratemos primeiro de tirá-las desse lugar.

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