O traficante é o grande vilão?

Close da compra de drogas

Como toda empresa, o tráfico de drogas também possui donos, diretores, gerentes e diversos funcionários para realizar todo o processo necessário, desde a produção até a comercialização dos seus produtos. A dimensão desta enorme empresa é muito maior do que normalmente imaginamos quando ouvimos falar em tráfico de drogas.

Os chamados “grandes traficantes”, os grandes chefes das favelas, que são temidos e procurados pela polícia, são apenas os “gerentes da empresa”, tendo acima deles ainda diretores, presidentes e donos, por assim dizer. Isso é interessante que seja observado, pois nos leva a concluir que existem pessoas com muito mais poder sobre o tráfico de drogas do que os traficantes, que muitas vezes vemos como os responsáveis por tudo isso (DOWDNEY, 2003).

O processo do tráfico inicia em grande escala em países como Colômbia, Bolívia, Peru e Paraguai, onde as drogas são plantadas pelos chamados produtores, que possuem as grandes plantações de coca (Colômbia, Bolívia e Peru) e de maconha (Paraguai).

Bolívia, Colômbia e Peru produzindo cocaína. Paraguai produzindo maconha

Fig.1 – Principais países produtores de drogas

Estes produtores são contatados pelos atacadistas, que organizam a importação das drogas. Os atacadistas possuem acesso a esquemas de lavagem de dinheiro e contatos com organizações criminosas internacionais. Depois de feita a encomenda, são os matutos que buscam a droga na fronteira e a levam para o coração das favelas, controladas pelos grandes traficantes. Os matutos abastecem todas as facções do crime organizado sem se envolver nos conflitos entre elas.

Para se ter uma ideia do poder que envolve os atacadistas e os matutos, os atacadistas têm acesso aos níveis mais elevados de poder do Estado, quando não são eles próprios membros de órgãos do Estado (NEPAD & CLAVES, 2000 apud DOWDNEY, 2003); e o matuto se move livremente entre todas as facções e é protegido por todas elas. Como afirma uma pessoa próxima ao esquema do tráfico, segundo Dowdney (2003), “a lei do crime diz que matuto não pode ser mexido”.

Só que o nível mais alto que conhecemos e que chega aos nossos ouvidos são os grandes traficantes, encontrados em quantidade comandando o tráfico desde a cadeia, onde estão presos. Abaixo dos grandes traficantes existem também diversos cargos responsáveis pela operacionalização do tráfico na favela, dentre eles os microtraficantes, responsáveis pela supervisão das operações cotidianas de venda de droga, defesa da favela e invasão de outras áreas.

Por último, estão os aviões e os esticas, principais contatos do consumidor final. Os aviões vendem droga diretamente aos clientes, na “boca de fumo”, e os esticas se deslocam até festas, universidades e escolas para vender a droga ao público que não vai até a favela.

E este esquema é tão bem pensado que os grandes responsáveis pela manutenção dele conseguem se manter no anonimato deixando as pessoas sem entender por que não são feitas ações significativas para combater o tráfico de drogas. Ao mostrar uma foto de uma plantação enorme de maconha em uma aula, um aluno me pergunta: “mas se sabem onde está a plantação e é algo que gera tantos problemas, porque não acabam com tudo de uma vez?”. Infelizmente, o poder de quem manda nesse esquema e ganha com ele é muito maior do que podemos imaginar, tornando-os intocáveis, e vai muito além do traficante, em quem sempre colocamos toda a culpa.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DOWDNEY, L. Crianças do tráfico: um estudo de caso de crianças em violência armada organizada no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.

Continue Lendo

Comente