“Ele tem que querer” – sobre o internamento involuntário

Ele tem que querer

É bastante conhecida a estratégia de internar um dependente químico contra sua vontade no intuito de livrá-lo das drogas. Mas será que isso adianta? Será válida aquela máxima de que para o tratamento funcionar “ele tem que querer” e não adianta interná-lo involuntariamente?

Uma coisa é certa, o sucesso do tratamento depende de uma decisão interna do dependente. É quando acontece um insight, uma mudança íntima, que normalmente é relatada como um “estalo”, quando o dependente se dá conta do problema que ele tem e começa a escutar tudo aquilo que lhe estava sendo dito centenas de vezes, diariamente, desde o início da sua internação.

Relato de um alcoolista em recuperação: “eu vivia o internamento como uma espécie de férias em um spa, e não como um tratamento de verdade. Teve um momento que eu entendi que tinha uma doença e precisava realmente mudar de vida. Então comecei a ouvir aquilo que os coordenadores repetiam para mim desde o início e que, até então, não tinha ouvido. É como se tivesse dado um estalo, que mudou o rumo da minha vida”.

Mudança alcoolista

Para que um tratamento tenha sucesso e ocorra uma mudança real no dependente, a máxima “ele tem que querer” é muito verdadeira. Se o dependente não quiser intimamente mudar, quando terminarem as “férias” dentro da clínica de reabilitação ele, certamente, voltará à ativa. Apenas mudaram seu local, mas ele permaneceu o mesmo.

E quando a discussão é sobre o ato de interná-lo involuntariamente ou não, a máxima “ele tem que querer” é verdadeira ou falsa? Só adianta interná-lo se isso for da vontade dele? Alguém tomar esta decisão por ele é completamente improdutivo?

Enquanto o dependente está intoxicado, sob a influência da psicoatividade da droga e da codependência da família, ele nunca vai querer ser internado. Primeiro porque a área do cérebro responsável pelo julgamento e tomada de decisão é bastante comprometida pelo efeito das drogas. Segundo porque, normalmente, a família oferece a ele, através da codependência, toda estrutura que ele precisa para seguir usando drogas sem vivenciar as consequências das suas escolhas.

Até quando teríamos que esperar para que ele sentisse a necessidade de ser internado? Até ele perder a família? Até ele ver a morte de frente? Realmente, quando chega a esse ponto pode acontecer de ele querer buscar ajuda.

Portanto, se não queremos esperar as consequências mais extremas da dependência química, o internamento involuntário não só é uma opção válida como, às vezes, é a única opção. Pode ser a melhor forma de parar o consumo do dependente, de permitir a desintoxicação e de fazê-lo sentir a crise da qual ele tanto foge através das drogas e da família.

Através do internamento involuntário dá-se ao dependente a oportunidade que ele não tinha enquanto estava intoxicado: a de decidir se realmente quer se tratar ou não. E o sucesso do tratamento vai depender desta decisão íntima dele e não do fato de o início ter sido voluntário ou involuntário.

Oportunidade de escolha

É o sucesso do tratamento que depende do “ele tem que querer”. O “querer” nasce da crise, da insatisfação com a situação atual. E o internamento involuntário é uma forma eficaz de gerar a “crise”.

Portanto, na próxima vez que você ouvir a frase “ele não quer se internar, não adianta”, lembre-se de que isso é só mais uma justificativa para adiar uma mudança que mais cedo ou mais tarde terá que ocorrer para que não cheguem as consequências últimas da dependência química. Só que quanto mais tarde, maiores as cicatrizes.

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